sábado, 16 de fevereiro de 2019

Todas as bandeiras - Maglore


A canção "Todas as bandeiras", da Maglore, descreve bem os nossos dias. Está ali o registro do triste destino de muitos dos considerados como "maus fabricados" dessa sociedade que segrega e mata.

Na última quinta feira morreu Pedro Henrique Gonzaga, assim como todos os dias morrem outros negros, morrem índios, morrem mulheres, morre a diversidade, morre a periferia. E os mantenedores do status quo "põem a culpa toda na cabeça de quem tem que morrer mas depois tem que limpar o chão".

O vento, porém, há de soprar com esperança, e aí todas as bandeiras vão se levantar. Nesse otimismo, que consola nossas lágrimas de indignação, é até mais fácil ver, em tom profético, o jardim da América em ato de completa e irresistível libertação.

Porque não adianta oferecer a morte pra nossa gente, vamos renascer, e ninguém vai impedir que aconteça: a cabeça do rei há de ser vista na bandeja do peão. Uma realidade que parece ser distante, mas que mistura a fé e a coragem de gente que não vai baixar a guarda, antes continuará existindo e resistindo.

Vamos todos ficar aqui.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Libertação

Cansaço. A gente chega e a mesa já está posta, e nada combina com o nosso gosto. Eu não queria me submeter a esse padrão. Você tem que. Tem que. Tem que. E se não quiser, quão grandes serão as dificuldades para viver bem. Sendo assim, qual é o meu valor diante do que está posto?

Eu quero puxar a toalha, subir na mesa e dizer para todo mundo que a vida é bem mais do que se vê. Quero gritar que somos diferentes, que não precisamos nos submeter. Quero dar razão ao Renato Russo, temos o nosso próprio tempo. 

E eu até imagino que nem todos irão concordar, não ficarei surpreso ante os julgamentos. Afinal de contas, Nietzsche já fez o favor de me avisar que aqueles que são vistos dançando são sempre julgados insanos por aqueles que não conseguem escutar a música. 

Não deve demorar muito para que eu seja convidado a me retirar. Os incomodados que se mudem, dirão, já posso até ouvir. Mal sabem eles que essa será, enfim, a minha revigorante libertação. Caminharei tranquilo, aumentarei o som, provarei do meu próprio banquete.

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Junto e misturado

Deus é a força que nos leva a olhar para o lado. É o misterioso impulso que traz a dor alheia à nossa pele. Nos faz sensíveis à fome e à sede do outro. Nos dá a humildade necessária para ouvir, com zelo, as palavras de quem quer que seja, porque do que tem fé ao que diz que não a tem, todo mundo é alvo de seu absurdo amor. Assim sendo, há sempre uma fonte de bondade que, com sutileza, revela um pouco dEle. 

Há um pouco dEle em toda gente, sobretudo nas pessoas mais improváveis do mundo. E ai de nós se Deus se recusasse a se misturar com gente como a gente. Ai de nós se Ele não percorresse os becos da vida com multiforme graça. Sim, há uma porção do divino em todo lugar, e talvez seja para isso que as Escrituras apontam quando tratam da chamada onipresença. Não é para que pensemos que estamos vivendo sob a vigilância do Grande Irmão de George Orwell, é simplesmente para que sintamos o aconchego da verdade de que Ele está onde quer que estejamos, ensinando, repartindo o pão, perdoando, transformando a tristeza do que nos faz falta na alegria do melhor vinho. Se Ele está, a justiça e a paz se beijam, há liberdade, e a tristeza salta, se move, dança. 

É isso que eu vejo quando leio sobre o Mestre de Nazaré, sua presença nunca representou tristeza,  divisão, opressão, imposição, discriminação, muito pelo contrário, de tanto se misturar, Ele era confundido com qualquer outro pecador comilão ou beberrão. E se misturou até o fim, morrendo como um bandido de sua época. Completamente distante da pompa dos que se colocavam como porta-voz do divino, donos da verdade, ávidos por poder, Ele abraçava aqueles que, apesar de serem marcados por todas as falhas do mundo, tinham um coração semelhante a vasos de barro, cheios de sinceridade e humildade.

Difícil é caminhar os caminhos do Eterno sem se misturar, sem buscar, dia após dia, um pouco dEle em todo mundo, em todo lugar. Sem se envolver com as histórias, com as necessidades, com a dor, com o fardo alheio. Difícil é não sentar na mesma mesa, com gente tão diferente, mas alvo do mesmo amor. É difícil, muito difícil, querer ser como Ele e se ver restrito ao que é religioso, às paredes do templo. Ele está lá, claro que está, mas também caminha pela cidade, nos mais improváveis lugares, espalhando os seus milagres, com sutileza, se revelando através da vida de todo tipo de gente, porque como canta o poeta, amor de verdade é livre, não vale a pena ficar tentando cercar. 

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Podres Poderes - Maria Gadú


Composta por Caetano Veloso e divulgada na década de 80, Podres Poderes, apesar de sua riqueza musical, é um vívido e infeliz retrato do campo político-social brasileiro. Sua gênese está diretamente relacionada ao processo de redemocratização do Brasil, momento apontado por muitos como de incertezas tanto na esfera internacional - representada pela insegurança quanto às utopias oferecidas pelo socialismo e pelo capitalismo - quanto na esfera nacional, marcada por movimentos como o Diretas Já. 

As supracitadas incertezas deste tempo podem ser sentidas através das indagações: "Será, será, que será? Que será? Que será? Será que essa minha estúpida retórica, terá que soar, terá que se ouvir por mais zil anos?" Contexto que se aproxima dos nossos dias, principalmente quando nos vemos submergidos em uma crise política e em um processo de desmoralização das instituições do país. Como se não bastasse, às vésperas de novas eleições, pesquisas apontam que os dois pré-candidatos mais cotados para assumirem a Presidência é um ex-presidente recentemente condenado por corrupção e lavagem de dinheiro de forma bastante questionável, e um inútil parlamentar que se sustenta através de falas ultra-conservadoras que incitam o ódio. Brasil incerto e polarizado. 

Diante das incertezas que marcaram aqueles dias de 1986, Caetano demonstra aversão à inércia do povo que inserido em um contexto onde "tudo é muito mau", onde "morrer e matar de fome, de raiva e de sede são tantas vezes gestos naturais" e onde o sangue jorra "nos pantanais, nas cidades, caatingas e nos gerais", continuam a avançar os sinais vermelhos, a mergulhar em imbecilidades e procurar apenas pelos êxtases dos carnavais. Fatos que nos aproximam novamente do contexto em que a canção foi escrita, porque é nítido que nos mantemos inertes diante do processo de desestruturação de direitos impostos pelo atual governo, os abusos cometidos pelo Judiciário, a desconsideração aos gritos dos Movimentos Sociais, às corriqueiras mortes em nome do agronegócio. 

Em meio às suas indignações, Caetano ainda questiona: "Será que apenas os hermetismos pascoais, e os tons, ou mil tons, seus sons geniais, nos salvam, nos salvarão dessas trevas e nada mais?" E aqui há menção à música brasileira que contava com figuras como Tom Jobim e Milton Nascimento, responsáveis por impulsionar, de certa forma, a população a pensar sobre conjuntura político-social em que estava inserida. Diferente, no entanto, dos nossos dias, em que a MPB, como disse Lulu Santos, aparentemente regrediu à fase anal. E embora existam vozes que nadam contra essa maré, as mesmas não são valorizadas como deveriam, elas não são o que se quer ouvir. 

E assim, preocupados com a forma da Terra, formando opinião com base em "fake-news", questionando se nudez é arte, promovendo boicotes a canais de TV e tentando enquadrar o Nazismo em espectro político, assistimos ao exercício daqueles que detêm o poder e trabalham apenas pela conquista de seus próprios interesses. Após mais de trinta anos, esse retrato ainda não desbotou, mas permanece com cores vivas. Por conta disso, toda a construção retórica de Caetano, ainda precisa, com urgência, soar e ser ouvida por mais alguns anos. 

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Welcome

Não se assuste pessoa, se eu lhe disser que a vida é boa. Enquanto eles se batem, dê um rolê e você vai ouvir. (Novos Baianos)

Dia desses abri uma das minhas redes sociais e vi o texto de alguém pedindo para que aqueles que nutrem um pensamento político-ideológico diferente do seu se retirassem dali e, se possível, que mantivessem distância. Segundo ele, as supostas divergências representavam um anseio por mundos opostos, logo, seria melhor que aquelas pessoas ficassem longe, sem nem precisar de despedidas. "Eu em meu mundo, e você no seu", enfatizou. 

É o mal do nosso tempo. Seja em interações virtuais ou pessoais, estamos perdendo a capacidade de interagir com aqueles que veem a vida sob uma perspectiva diferente da nossa. Construímos o nosso mundo de forma isolada para que ele não seja ameaçado por nenhuma outra forma, e a nossa cega adesão a determinadas opiniões sobre política, religião, economia, esporte, são como um indestrutível concreto. Percebendo isso no comportamento de tanta gente, a chegada de um discurso como o de Donald Trump a um dos lugares mais poderosos do mundo, e a crescente popularidade do que diz Jair Bolsonaro por aqui, não é tão inacreditável assim. 

Eu já fui um fanático religioso, as minhas teses teológicas eram verdades absolutas, e muitas foram as vezes em que me afastei de gente que resolvia bater de frente com o que eu defendia. Não havia muita tolerância aos que resolviam palpitar sobre as formas das minhas construções. Mas a solidez do meu mundo foi destruído no momento em que abri os meus olhos para perceber que não daria para viver bem dentro dele, toda a desaceitação ao diferente se converte em solidão, e como bem sentenciou Tom Jobim: "É impossível ser feliz sozinho". Seguindo essa lógica, talvez estejamos cada vez mais rodeados de gente infeliz. Portadores dos melhores aparatos tecnológicos, colecionadores dos melhores discursos, das melhores fotografias, dos maiores números de "likes", mas sozinhos e infelizes. 

No momento em que abri as portas do meu mundo para que todo tipo de gente entrasse, aprendi valores que jamais aprenderia sozinho. Hoje me esforço para que a passagem de cada um deles me mostre o que eu ainda não vejo, permito que a venda da aceitação cega a ideias seja removida, e dialeticamente fortaleço as minhas convicções quando ouço os seus diversos argumentos, ainda que estes pareçam ser tão absurdos. A solidão não nos permite negar as nossas desumanidades, não nos tira das águas do egocentrismo, não nos lapida. E se o sentido da vida for a particular promoção de uma evolução mental e/ou espiritual para que sejamos pessoas melhores, isso só ocorrerá quando aprendermos a cultivar os mais variados relacionamentos, a valorizarmos as pessoas simplesmente por serem nossos semelhantes, independente do que defendem, do que creem, do que ouvem, do que dançam, de quem beijam. 

É, entretanto, desesperador ser ensinado pela Vida sobre essas questões e ver tanta gente engajada na fria e isolada construção dos seus mundos. Mas insisto em nutrir esperanças, afinal de contas, como diz o ditado que crescemos ouvindo, ela não morre com tanta facilidade. Basta andar por aí determinado a enxergar a beleza que ainda nos resta para perceber que os mesmos dias que são marcados por extremos, são também marcados por gente que resolveu abrir as portas dos seus respectivos mundos. Entre por elas sem muitas cerimônias! E caso venha a se deparar com alguma porta fechada, não custa nada bater com todo respeito que só quem aprendeu a pluralizar a existência sabe ter.