quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Playlist: Biquini de Natal - Marcos Almeida


A Terra faz festa pra Ele
O céu se estendeu sobre a praia
Deixa o verão te aquecer
A nossa rua dizer que é natal


Flocos de neve, bonecos de gelo, meias grossas, roupas pesadas, lareira, são alguns elementos característicos da comemoração de natal. Há em tal fato a inevitável influência de países que vivem o inverno neste período do ano. Até mesmo o São Nicolau de Mira, conhecido popularmente como Papai Noel, mudou-se para o Pólo Norte para se adaptar à realidade de países como a Finlândia. Conta-se que na década de 1950, o governo finlandês construiu uma vila na região da Lapônia que ficou conhecida como lar oficial do Papai Noel, fator que estimulava o turismo local. 

Talvez faça mais sentido associar o natal ao inverno se levado em consideração que a temperatura é baixa na região de Belém neste período do ano, mas este fato também é contestado por aqueles que apontam que provavelmente Cristo não nasceu em meio ao inverno, pois, segundo a Bíblia, no momento em que Ele veio ao mundo, pastores vigiavam seus rebanhos, tarefa que seria árdua demais para ser feita sob baixas temperaturas. Alguns estudiosos arriscam que o Nazareno veio ao mundo em tempo mais ameno, como em uma primavera de abril. 

Deixando de lado as (des)construções históricas, e todo o debate que gira em torno do real momento em que o Salvador veio ao mundo, verdade é que muitos dos elementos utilizados para comemoração do natal se distanciam da nossa realidade. Em um país tropical como o Brasil, pensar em bonecos de neve é, no máximo, pensar no quanto seria bom abraçá-los para amenizar o calor que marca os nossos dezembros e sinaliza a chegada do verão. Pensando nisso, o cantor e compositor Marcos Almeida, nos presenteou em 2014 com o single "Biquini de Natal". 

Trazendo a junção de imagens clássicas do natal, como a de luzes coloridas, e imagens típicas do verão dos países que estão abaixo da linha do Equador, Marcos Almeida aproxima a beleza da recordação do nascimento de Jesus de Nazaré à nossa realidade. Não mais neve, raios solares, não mais roupas pesadas, biquini... mas apesar de tais discrepâncias, os bons sentimentos que movem - ou deveriam mover - os corações dos homens neste período do ano os unem. Seja no inverno, seja no verão, a recordação de que o Eterno nos enviou o seu amado Filho, nos faz pensar sobre amor, graça, perdão, simplicidade, valores que independem dos elementos utilizados em nossas comemorações.

Biquini de Natal é, nas palavras do próprio Marcos Almeida, Cristo nos trópicos, o céu se estendendo sobre a praia, a paz que se sente quando vemos reconciliadas nEle identidade e eternidade, Brasil e Reino, pertencimento e jornada, uma boa pedida para aproveitar o nosso caloroso natal com bela trilha sonora. 

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Samaritano

Deus me proteja da sua inveja, Deus me defenda da sua macumba, Deus me salve da sua praga, Deus me ajude da sua raiva, Deus me imunize do seu veneno, Deus me poupe do seu fim. Deus me acompanhe, Deus me ampare, Deus me levante, Deus me dê força. Deus me perdoe por querer que Deus me livre e guarde de você. (Rita Lee)

Um dia Jesus estava se preparando para ir com os seus discípulos para Jerusalém. Por conta disso, enviou alguns mensageiros para fazerem os preparativos, os quais entraram em uma cidade samaritana, mas não foram bem recebidos, pois os samaritanos não desejavam ter a presença de Jesus  por ali. Se tratava de um povo que estava em conflito com os judeus, porque tinham uma convicção religiosa diferente. Os judeus evitavam qualquer tipo de contato com os samaritanos, e os acusavam de distorcer as escrituras sagradas. 

Sabendo da rejeição sofrida por Jesus, seus discípulos prontamente sugeriram: "Mestre, o senhor quer que invoquemos um raio do céu para acabar com eles?". Indagação que me soa familiar quando olho para os nossos dias, marcados por terreiros destruídos, gritos de caça às bruxas, invocação de guerras santas, boicotes infantis, anseio por armas, mortes. A familiaridade aumenta quando identifico que tais posicionamentos partem de pessoas que dizem ser seguidoras do Mestre de Nazaré. Pois é, qualquer semelhança, certamente não é mera coincidência. 

Diante da proposta violenta de seus discípulos, o Príncipe da Paz, por óbvio, os repreendeu: "Vocês não sabem de que espírito sois. Porque o Filho do homem não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las". Resposta que desestrutura todo muro construído por homens que insistem em não conviver com o diferente, em fazer de suas convicções morais, políticas, religiosas, a munição que precisam para destruir vidas. Se passaram mais de dois mil anos, e os que dizem estar perto do maior Mestre da Humanidade permanecem usando o divino como justificativa para a podridão dos seus corações egoístas, intolerantes, preconceituosos. 

Ao contrário do que esperavam, Jesus se relacionou com os samaritanos e derramou sobre eles o seu amor. Além disso, os exaltou em uma de suas parábolas, ao colocar um samaritano como alguém que teve sensibilidade suficiente para socorrer um indivíduo que estava ferido no caminho. Postura que, segundo a parábola, divergia dos judeus, que estabeleceram como prioridade os seus deveres eclesiásticos. Nisso, mais uma vez, o Mestre nos ensina que os seus seguidores tendem a colocar dogmas acima da vida, do humano. Nossa agenda está cheia de cultos, marchas, shows, subidas de montes, profecias, mas vazia do que realmente importa. E o Apóstolo Paulo já nos advertiu: nada disso adianta se nos falta amor! Nada disso importa se não somos humanos, altruístas, pacificadores, como Cristo foi e é. 

Tenho absoluta certeza, que existem inúmeros samaritanos da atualidade muito mais alinhados ao coração do Pai do que os doutores da Lei, e a minha oração é para que eu seja como eles. Sim, nesse mundo de "seguidores radicais", "loucos por Jesus" e afins, eu prefiro ser o bom samaritano. Humano, imperfeito, mas alinhado ao coração do Pai. 

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Deus do conreto

(...) qualquer religião que professe uma preocupação com as almas dos homens, mas não esteja igualmente preocupada com as favelas a que estão condenados, com as condições econômicas que os estrangulam e com as condições sociais que os debilitam, é uma religião espiritualmente moribunda, que só falta ser enterrada. Já se disse muito bem: Uma religião que termina no indivíduo é uma religião que termina. (Martin Luther King)

Ter tido espontâneo contato com as escrituras desde a infância sempre foi motivo de orgulho para mim, e a cada dia me convencia de que a soma resultante dos meus devocionais e de tudo o que ouvia na instituição religiosa que frequentava seriam suficientes para que eu entendesse as palavras do Eterno. Eram compreensões desvinculadas da minha relação com as pessoas, de uma análise da sociedade; uma fé baseada exclusivamente no plano espiritual. Deus estava lá, não aqui, se preocupava com o invisível, o visível era problema dos homens que se recusavam a ouví-lo. Eu nada tinha a ver com a Terra, era um cidadão do céu, e deveria perder a minha vida aqui para viver lá. Fugir disso era me corromper com o mundo. Ledo engano. 

Por escolher uma graduação que não era oferecida em minha cidade, saí de casa pela primeira vez. Morar sozinho e começar a trilhar a estrada acadêmica foram grandes instrumentos para um processo de mudança das minhas convicções em relação a muitas coisas, sobretudo, a minha forma de ver Deus. Por estar longe da instituição religiosa que sempre frequentei, fui condicionado a aprender com o Eterno no meu dia a dia como nunca antes. E eu O encontrei nas minhas relações com pessoas dotadas de características tão inusitadas se comparadas com as daquelas que eu vivia anteriormente. Eu O encontrei nos ônibus, em aulas, em reuniões, em confraternizações e no silêncio do meu quarto. Eu O encontrei nos momentos felizes, bem como naqueles dias em que tudo estava de mal a pior e eu só tinha a Sua companhia. Assim, aquele Deus tão metafísico dava lugar ao que foi apresentado por Jesus, um Deus que se encarnou por completo, que se relacionou, se identificou e participou de uma sociedade sendo relevante nela. Deus está no concreto.

Encontrar Deus no concreto é voltar a dar importância a todos os que estão ao redor. É entender que o Eterno não está confinado em um galpão, Ele nos fez igreja para que pudéssemos nos manifestar com amor e graça em todo lugar. Sendo assim, tão edificante quanto estar com outros cristãos em determinado lugar - por mais que isso seja imprescindível - é estar com muitos outros amigos e familiares que talvez não sejam cristãos; é estar com o diferente, e de coração aberto, humildemente, aprender com todos eles. Encontrar Deus no concreto é se indignar com os zilhões de problemas sociais do nosso país e entender que a luta dos marginalizados também é nossa, porque ouvimos o Mestre dizer: "Está vendo todos eles? São seus irmãos, ame-os como você ama a sua própria vida!" Encontrar Deus no concreto é entender que Ele, sendo amor, não pode ser entendido por meio de uma vida religiosamente uniforme e solitária. Encontrar Deus no concreto é sacralizar a vida como um todo, considerando-a como a tela que o Eterno-Pintor insiste em colorir.

Em meio a essa realidade que dia após dia se descortina no seio da minha existência, tenho estudado sobre a vida do pastor Martin Luther King Jr., um grande exemplo para nós. Através de sua autobiografia, organizada pelo professor Clayborne Carson, tenho me inspirado através de suas indignações diante das chagas sociais de seu tempo. Na obra, há relatos da luta contra a segregação racial em diversas cidades do sul dos Estados Unidos, sendo Birmingham a que apresentava maior resistência por parte dos segregacionistas. Nesta cidade, King foi surpreendido por uma carta redigida por determinados pastores pedindo o fim das manifestações. Nesse contexto, o pastor escreveu uma longa resposta a fim de defender o que estava sendo feito por ele e os demais ativistas; uma inspiradora carta. Nela, King, entre outras coisas, lamenta a indiferença da Igreja da época:

"Em meio a uma vigorosa luta para livrar nossa nação da injustiça social e econômica, ouvi muitos pastores dizerem 'Trata-se de questões sociais nas quais o evangelho não tem nenhum interesse real'. E vi muitas igrejas se dedicando a uma religião totalmente transcendental que estabelece uma distinção estranha, não bíblica, entre corpo e alma, sagrado e secular. (...) Assim, com frequência a Igreja é uma voz fraca, improdutiva, com um som ambíguo. Assim, com frequência a Igreja é uma arquidefensora do status quo. Longe de ser ameaçada pela presença da Igreja, a estrutura de poder da comunidade em geral é consolada por sua aprovação silenciosa - e muitas vezes declarada - das coisas como elas são." (p.241-242)*

Diante de tudo o que tenho lido, posso dizer que o pastor Martin Luther King Jr. é, sem dúvidas, um grande exemplo de cristão que enxerga Deus e sua obra no concreto, e em meio a um forte contexto religioso marcado por mobilizações voltadas apenas ao plano espiritual - que exigem menos sacrifícios - é bom ser despertado por um referencial como ele.

Não digo tudo isso por não crer nos benefícios advindos do plano espiritual, eles são inegáveis, mas também é verdade o fato de que não temos uma fé viva se esta é completamente pautada em espiritualidades. O apóstolo Tiago, indaga (Tiago 2:14-17): Do que adianta eu dizer que tenho fé, se não tenho obras? Do que adianta dizer que tenho fé em Deus, e ao ver um necessitado nada faço no concreto? A fé sem nenhuma obra não tem vida, é morta. Ouso dizer, então, que a fé fundamentada em um Deus metafísico não é viva. O Eterno nos convida a viver o caminho da fé que vive, uma fé que nada contra a corrente da religiosidade e da espiritualização exacerbada que nos impede de dizer com clareza: Deus está aqui.



*CARSON, C. (org.). A Autobiografia de Martin Luther King. Tradução de: Carlos Alberto Medeiros. 1. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2014. 

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Lua

Pela janela do quarto, pela janela do carro, pela tela, pela janela. Quem é ela? Quem é ela? Eu vejo tudo enquadrado, remoto controle. (Adriana Calcanhotto)

Lembro que na minha infância tirar foto não era tão comum, era sinônimo de ocasião especial, momento que merecia ser eternizado em um álbum físico, e revisitado sempre que quiséssemos reviver o registro. Volta e meia eu pegava todos os álbuns de casa e através deles via momentos que antecederam meu nascimento, minhas mudanças e a das pessoas que estavam ao meu redor, sorrisos, abraços, festas, viagens. Uma aula sobre o vivido. 

Hoje, com um smartphone em mãos, todo mundo é um incansável fotógrafo. Com esforço menor, momentos também são registrados, mas há menor probabilidade de se eternizarem, porque com a mesma facilidade da captura, há grande chance de ocorrer descarte definitivo. As fotografias atuais raramente se tornam físicas, e a revisitação do vivido se tornou dependente da tecnologia, basta, portanto, um problema técnico para que tudo se perca, é um problemão. 

Com a facilidade dos nossos dias, suprimos os malefícios da nossa rotina frenética - que, por exemplo, nos impulsiona a viver desatentos ao mundo - com as fotografias prontamente encontradas nas redes. Pra que olhar para os lados se com meu aparelho posso ver as árvores da praça? Pra que olhar para o céu se ele também está no meu Moto G? 

Mas na natureza existe uma senhora que, por vezes, frustra os fotógrafos da modernidade líquida. A lua nos surpreende com sua beleza, a propósito, ontem ela estava linda demais. E eu acho tão engraçado quando tentam registrá-la e não conseguem, tudo o que aparece é um ponto branco. Imagino-a dizendo: Acha que eu me arrumei toda esta noite para você facilitar a contemplação dos outros? Quem quiser me ver que saia de seus esconderijos, que vá para rua, que acione os freios, que caminhe contra a corrente dos últimos dias. 

O tempo passa, e como diz Lulu Santos, tudo muda o tempo todo no mundo. Mas a grandeza da criação permanece apontando o sentido da vida. Certamente, assim como as misericórdias do Eterno, ela se renova todas as manhãs, adaptando suas mensagens às atuais necessidades. Talvez por isso em tantos momentos o Criador nos direciona: Olhe para as estrelas, observe os animais, contemple os lírios do campo. Mais que beleza, há sabedoria, verdades que não podemos perder de vista. 

sábado, 11 de março de 2017

Só vem

Eles então arrastaram seus barcos para a praia, deixaram tudo e o seguiram. (Lucas 5:11)

Um dia aparentemente como outro qualquer, pescadores repetiam o que determinava a rotina, redes ao mar. Certamente nem imaginavam que diante deles apareceria Aquele que mudou a história da humanidade. Em um contexto natural, sem nada de mirabolante, gente como nós foi chamada para caminhar com Deus. Não foi necessário o preenchimento de nenhum pré-requisito, apenas uma resposta ao convite. Resposta essa que, talvez, não foi marcada por palavras, mas apenas por atitudes. Deixaram tudo e o seguiram. 

Embora os doutores da lei teimem em dizer que não, acredito que a simplicidade da convocação dos discípulos se repete em nossos dias, não sei se com a intensidade que o Autor desejaria, porque infelizmente a religião atrapalha a visão de Seus grandes, nobres e humildes propósitos. Ansiando por uma estrutura lógica semelhante às suas razões, a humanidade traçou pré-requisitos meramente externos para os que desejam ser seguidores do Mestre. Regras sem respaldo concreto, imposições sem a consideração das individualidades que cada um carrega, ausência da sensibilidade do carpinteiro que entendia como ninguém a humanidade. 

Jesus não os convocou para os templos, não pediu a pronúncia de frases prontas, não os entregou uma lista de lícitos e ilícitos, não os desvinculou da realidade, apenas ofereceu graça e os conduziu ao caminho. Ali, o Rei humilde fez poesia com os piores dilemas, surpreendeu com ações do cotidiano, ensinou com diálogos direcionados a quem vivia a margem da sociedade. Ele foi onde ninguém queria ir, às comunidades não pacificadas dos dias atuais, ao sertão nordestino, à cracolândia, aos ribeirinhos, aos presídios. Com Cristo, o chão que recepciona o árduo suor humano é a escola que nos torna semelhantes a Ele. 

Jesus valoriza o que é interno, inverte-se a ordem. O templo passa a ser eu, o Amor me invade e concede a habilidade para fazer artesanato com a matéria bruta da vida. Ele nos faz pintores do que antes era desbotado, um trabalho conjunto, Mestre e discípulos dando sentido ao que se ouve, se lê, se vê, se vive. Tudo isso fundamentado em graça, não há valor a ser pago, houve definitiva e completa quitação de dívida no madeiro. Isso é, de fato, um absurdo para nós, acostumados com a ideia de que nada que é bom vem de graça, que entende a justiça com base na troca, na meritocracia. Temos, no entanto, muito o que aprender com o Criador... só nos resta responder ao seu convite, com ação, com coração, e com Ele ir tocando em frente.