segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Eu, Pedro


Você se revelou a mim. Hoje, quando reconheço sua grandeza, me ponho a pensar no que te motivou a vir ao meu encontro. Eu nada tinha, muito menos tenho agora. Sempre menor, sempre alvo das aflições da vida, incompreendido, ignorado, uma piada. Em um dia comum, tão comum que nem mesmo me lembro da data, te encontrei pela primeira vez. Não, eu não me movi em sua direção, eu não procurei por nada diferente, eu apenas vivia. Mas você veio e me fez ouvir, com o meu coração, a sua amorosa voz pela primeira vez.  "Eu vim te fazer alguém melhor, apenas vem comigo", você disse. Não entendi muito bem, eu estava cheio de imaturidade, mas a minha alma te reconheceu, e naquele momento nada mais importava, eu nada disse, apenas acompanhei o teu nobre caminhar. 

Te acompanhar, no entanto, sempre foi um desafio diário, até hoje não entendo muitas das tuas palavras, dos teus comportamentos, das tuas escolhas. Mas confesso que tudo em você me ensina e concretiza aquilo que me foi oferecido em nosso primeiro encontro, até mesmo aquelas situações embaraçosas que você me deixa passar. Elas não são raras, as vezes parece que é tudo programado, vou remando o meu barco com tranquilidade quando, de repente, as cores escurecem e ondas agitadas veem em minha direção. O futuro é onda, as pessoas são ondas, o que quero é onda, eu sou onda. E o medo me toma de tal forma diante delas que te confundo com um fantasma, não te reconheço, me sinto só e perdido. Preciso da tua intervenção outra vez, e você, Amigo, prontamente vem e diz mais uma vez: "Eu vim te fazer alguém melhor, apenas vem comigo". A minha alma te reconhece novamente, eu caminho no impossível olhando nos teus olhos.

As vezes, porém, como consequência das minhas imperfeições, resolvo tirar os meus olhos dos teus, não presto mais atenção em ti, os direciono às velhas ondas. Elas fazem muito barulho, teimam em chamar minha atenção, e, como um tolo, acredito que posso lidar sozinho com elas, tenho a impressão de que os meus pés podem me sustentar agora. Nesse momento, em desespero, afundo, e percebo que estou enganado, pois o que me sustenta na caminhada é olhar para ti. Olhar para esperança, para o amor, para a criação que testifica a sua perfeição. Mas parece ser tarde demais, as águas me empurram para baixo, fundo do poço.

Entretanto, minhas infidelidades não mudam aquilo que você sentia quando me viu pela primeira vez, você insiste e intervém outra vez na minha existência. Sabendo que agora nada posso fazer por mim mesmo, não vens com um convite, antes estendes a tua mão e me traz de volta para o lugar que eu nunca deveria ter saído. Na superfície, vejo em você uma intensa luz que descortina toda a minha vida e me mostra que mesmo caminhando contigo meus pés nunca deixarão de falhar. Sou eternamente dependente, isso me traz segurança. Sou eternamente amado, independente de quem sou, isso me cura. Sou Pedro, e o  meu desejo é que assim como insistes em fazer de mim alvo da tua bondade, eu insista em contigo caminhar. 

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