quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Welcome

Não se assuste pessoa, se eu lhe disser que a vida é boa. Enquanto eles se batem, dê um rolê e você vai ouvir. (Novos Baianos)

Dia desses abri uma das minhas redes sociais e vi o texto de alguém pedindo para que aqueles que nutrem um pensamento político-ideológico diferente do seu se retirassem dali e, se possível, que mantivessem distância. Segundo ele, as supostas divergências representavam um anseio por mundos opostos, logo, seria melhor que aquelas pessoas ficassem longe, sem nem precisar de despedidas. "Eu em meu mundo, e você no seu", enfatizou. 

Para mim este fato é um bom retrato dos nossos dias. Seja em interações virtuais ou pessoais, estamos perdendo a capacidade de interagir com aqueles que veem a vida sob uma perspectiva diferente da nossa. Construímos o nosso mundo de forma isolada para que ele não seja ameaçado por nenhuma outra forma, e a nossa cega adesão a determinadas opiniões sobre política, religião, economia, esporte, são como um indestrutível concreto. Percebendo isso no comportamento de tanta gente, a chegada de um discurso como o de Donald Trump a um dos lugares mais poderosos do mundo, e a crescente popularidade do que diz Jair Bolsonaro por aqui, não é tão inacreditável assim. 

Eu já fui um fanático religioso, as minhas teses teológicas eram verdades absolutas, e muitas foram as vezes em que me afastei de gente que resolvia bater de frente com o que eu defendia. Não havia muita tolerância aos que resolviam palpitar sobre as formas das minhas construções. Mas a solidez do meu mundo foi destruído no momento em que abri os meus olhos para perceber que não daria para viver bem dentro dele, toda a desaceitação ao diferente se converte em solidão, e como bem sentenciou Tom Jobim: "É impossível ser feliz sozinho". Seguindo essa lógica, talvez estejamos cada vez mais rodeados de gente infeliz. Portadores dos melhores aparatos tecnológicos, colecionadores dos melhores discursos, das melhores fotografias, dos maiores números de "likes", mas sozinhos e infelizes. 

No momento em que abri as portas do meu mundo para que todo tipo de gente entrasse, aprendi valores que jamais aprenderia sozinho. Hoje me esforço para que a passagem de cada um deles me mostre o que eu ainda não vejo, permito que a venda da aceitação cega a ideias seja removida, e dialeticamente fortaleço as minhas convicções quando ouço os seus diversos argumentos, ainda que estes pareçam ser tão absurdos. A solidão não nos permite negar as nossas desumanidades, não nos tira das águas do egocentrismo, não nos lapida. E se o sentido da vida for a particular promoção de uma evolução mental e/ou espiritual para que sejamos pessoas melhores, isso só ocorrerá quando aprendermos a cultivar os mais variados relacionamentos, a valorizarmos as pessoas simplesmente por serem nossos semelhantes, independente do que defendem, do que creem, do que ouvem, do que dançam, de quem beijam. 

É, entretanto, desesperador ser ensinado pela Vida sobre essas questões e ver tanta gente engajada na fria e isolada construção dos seus mundos. Mas insisto em nutrir esperanças, afinal de contas, como diz o ditado que crescemos ouvindo, ela não morre com tanta facilidade. Basta andar por aí determinado a enxergar a beleza que ainda nos resta para perceber que os mesmos dias que são marcados por extremos, são também marcados por gente que resolveu abrir as portas dos seus respectivos mundos. Entre por elas sem muitas cerimônias! E caso venha a se deparar com alguma porta fechada, não custa nada bater com todo respeito que só quem aprendeu a pluralizar a existência sabe ter.

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