quinta-feira, 22 de setembro de 2016

O Faxineiro das almas

As minhas janelas são esses olhos que brilham, uma coisa ela mostra, quem a ilumina é o meu amado, mudando as coisas de lugar dentro de mim. (Palavrantiga)

Por causa da intensa rotina, fazia dias que não arrumava o seu quarto. É que quando chegava em casa usava a energia que sobrava apenas para tomar um banho e se jogar na cama. Esquecia, portanto, que por mais cuidadoso que alguém seja, involuntariamente, as coisas saem do lugar, a poeira se instala por toda parte, no chão se acumula o que trazemos da rua através dos nossos sapatos e resquícios do que deixamos cair sem perceber. Pouco a pouco o micro-caos tende a se instalar. 

Um belo dia olhou em volta e percebeu que não dava mais para viver na bagunça da procrastinação. Arregaçou as mangas e começou a limpeza. Primeiramente, tirou tudo das prateleiras, dos armários, do guarda-roupa, notando, através disso, que muitas vezes para colocar determinadas coisas em ordem é preciso bagunçá-las ainda mais. Descobriu papeis e objetos que não eram mais úteis, tudo foi destinado ao lixo. Árduo trabalho, parecia que quanto mais mexia nas gavetas, compartimentos e caixas, mais insignificâncias surgiam. As horas passavam e aparentemente tudo estava no mesmo estado. 

Naquele momento seu quarto poderia ser comparado à sua vida. Talvez por um significante período os compartimentos de sua existência também não sofreram uma boa limpeza, estava tudo fora do lugar. E foi arrumando o externo que parou para pensar na possibilidade de o lado de dentro também ser marcado pela sujeira dos dias que passam. Lembrou das sujas palavras que entraram pelos ouvidos, das imagens que mancharam a memória, do cheiro que despertava lembranças desagradáveis, do coração pesado, alma pesada. 

Mas como limpar o que há por dentro? Não há possibilidade humana, apenas a fé no Nazareno que, tempos atrás, ao contemplar as nossas dificuldades em manter a ordem interna, disse: Vinde a mim, todos vocês que estão sobrecarregados, cheios de poeria e lixo, eu posso alivia-los. Os ecos de suas palavras repercutem até os dias de hoje trazendo esperança e a certeza de que há a possibilidade vivermos limpos e leves. Como se não bastasse, Ele bate continuamente na porta do quarto que somos sem se incomodar com a bagunça. Sim, a única solução para a alma suja e pesada é tão rica em humildade que vai ao encontro de quem precisa e espera apenas a gentileza de uma porta aberta. É de graça o seu serviço, sua inconfundível forma de selecionar o que fica e o que será descartado. Ele tudo arruma, e de tão amável é impossível deixá-Lo ir, até mesmo porque, sem a Sua presença as coisas saem do lugar e nunca seremos capazes de colocar tudo ordem novamente.

Depois de um bom tempo arrumando o quarto, deitou no chão e com os olhos fixos na lâmpada que se apresentava como uma luz no fim do túnel, se dirigiu a Ele, o amado Faxineiro das almas: Por favor, assim como aparentemente ajeitei as coisas por aqui, me ajude a limpar o que não alcanço e ninguém mais poderá alcançar. Sempre ouvi a porta bater, hoje eu te deixo entrar. Não pedirei para que não repares na bagunça, não a esconderei de Ti, pois preciso que vejas o quanto necessito de sua ajuda. Eu deixo Você jogar fora tudo o que ainda insisto em guardar, sei que não iremos concordar com tudo, mas abro mão das minhas vontades, sei que irá doer em certos momentos, mas posso contar com o teu abraço, sei que não entenderei o seu tempo, mas no fim eu serei dia perfeito e do meu interior, de tão limpo, fluirão os teus rios, é o que importa. Amado Faxineiro das almas, eu preciso de Você. 

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