quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Manda nudes

Tal como escravos fujões, escapamos de nossa realidade ou produzimos um falso "eu" que seja admirado pela maioria, relativamente atraente e feliz apenas na superfície. Escondemos aquilo que sabemos ou sentimos ser (que pressupomos ser inaceitável ou indigno de amor) atrás de algum tipo de aparência que, esperamos, seja mais agradável. Escondemo-nos atrás de semblantes bonitos só para agradar os outros. Com o tempo, podemos até esquecer o que estamos escondendo e passar a acreditar que temos, de fato, a mesma aparência das máscaras que usamos. (Simon Tugwell)

Dias atrás estive em uma livraria e comprei um livro influenciado pelo seu título "O impostor que vive em mim". Tenho feito a leitura e, ao mesmo tempo, vou conhecendo um pouco mais sobre o autor. Trata-se de Brenann Manning, teólogo e filósofo que traz interessantes abordagens sobre a natureza humana em conflito com o amor e graça de Deus. Não o conhecia até então, e fiquei com pé atrás quando compartilhei com um amigo sobre minha nova aquisição e sua reação foi direcionada ao fato de que se tratava de um cara com vida conturbada e que distorcia determinados conceitos. Uma amiga, por sua vez, me disse que gostava muito do Brenann, mas que eu poderia não concordar com determinadas coisas. Tendo em vista essas afirmações, redobrei a atenção nas primeiras leituras. 

Tenho a mania de passar um traço em palavras ou expressões que discordo em determinados livros, pensei que choveria atos do tipo, mas já estou na metade da obra e, se não me engano, apenas uma insignificante palavra foi riscada. Acredito que por mais controverso que seja um autor ou obra, há sempre o que se aproveitar, nem que sejam palavras a mais para o nosso vocabulário. Já comentei aqui certa vez que mesmo que não concorde com determinado teórico ou linha de pensamento, não costumo desprezá-los, porque há sempre o que pode ser retido. Nossos opostos nos enriquecem pois nos levam a consolidar o que já temos em mente. Não é o caso do Brenann em "O impostor que vive em mim", não somos opostos aqui, a cada leitura tenho me identificado com suas ideias e me vejo confrontado com muito do que é dito. 

Uma das questões tratadas ao longo dos capítulos que mais tem chamado minha atenção é o fato de que, segundo o autor, nós somos condicionados a não vivermos da forma como realmente somos. Por motivos subjetivos, relacionados à história de cada um, e motivos estruturais, relacionados, por exemplo, às instituições que fazemos parte, escondemos o nosso verdadeiro eu em nome da aceitação dos outros e, consequentemente, da nossa autoaceitação. Assim, entra em cena o que Brenann chama de impostor. E quando começamos a refletir sobre isso, passamos a identificar o quanto levamos a vida dessa forma até mesmo sem percebermos. O impostor se confunde com a nossa essência, e de tão usado, nos leva a crer que é o nosso eu verdadeiro. 

Depois de confrontado em inúmeros parágrafos, comecei a analisar minhas atitudes, meus diálogos, minha vida. Quem tenho sido? Penso antes de falar, penso antes de agir, me condiciono a viver sendo quem sou, não da forma que as pessoas esperam que eu seja ou da forma que gostaria de ser. Preciso ser quem sou e amar isso, ainda que seja um caminho árduo e não instantâneo, mas tentar é um relevante passo. 

Também tenho visto o quanto as pessoas escondem quem realmente são ao longo de suas conversas, dos seus discursos. Percebam que quando alguém vai falar sobre superação, por exemplo, não costuma desnudar a alma, compartilhando do que realmente sentiu, do que falou e não deveria, das atitudes precipitadas que tomou. Raramente alguém senta com outrem pra falar mal de si mesmo, confessar os seus pecados, trazer à luz o que há de escuro dentro de si. Ninguém está disposto a mostrar suas feridas, queremos apenas mostrar as cicatrizes, enquanto existem inúmeras pessoas precisando saber que elas não estão feridas sozinhas, e talvez seja por isso que costumam dizer que corriqueiramente temos a ilusão de que a nossa vida é sempre a pior, que tudo de ruim só acontece conosco. Ilusão, somos apenas referência na arte de encobrir fraquezas. 

Em tempos de compartilhamento de fotografias com o corpo nu, bom seria se estivéssemos dispostos a mandar nudes da alma, a não desprezar nossa humanidade. Pois é, somos humanos, pecamos todos os dias, e mente quem diz o contrário. Não estamos sempre sorrindo como nas fotos que compartilhamos nas redes sociais, não somos sempre racionais como nos textos que escrevemos ou como em nossos inflamados discursos. Não somos tão altruístas assim, não temos todas as respostas, somos falhos, teimosos, cruéis, dependentes, eternos aprendizes, alvos da graça. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário