quinta-feira, 26 de maio de 2016

Empatia

"Percorra o caminho que eu percorri, viva as minhas tristezas, as minhas dúvidas e as minhas alegrias. Percorra os anos que eu percorri, tropece onde eu tropecei e levante-se assim como eu fiz. E então, só aí poderás julgar. Cada um tem a sua própria história. Não compare a sua vida com a dos outros. Você não sabe como foi o caminho que eles tiveram que trilhar na vida." (Clarice Lispector)

Interagir com as pessoas nos mostra o quanto somos sujeitos ao engano. Tem gente que em um primeiro momento nos leva à construção de uma imagem negativa, e isso só se desfaz quando aproveitamos outras oportunidades de interação, passamos então a nos conhecer a ponto de sentir vergonha daquilo que tínhamos pensado primariamente. O inverso também acontece.

Inúmeras pessoas já me procuraram para falar sobre a primeira imagem que tiveram quando me conheceram, gosto de ouvir esse tipo de relato e acredito que de forma unânime a seriedade aparece como principal marca. Elas geralmente me contam isso dando risada, porque quem realmente me conhece sabe que não sou predominantemente sério. Gosto muito de sorrir e vivo falando besteira para que os outros sorriam também. Como cantam por aí: "Não que a vida seja assim tão boa, mas um sorriso ajuda a melhorar". Concordo.

Falar sobre pré-julgamento é como recitar um chavão, mas estive pensando no quanto precisamos amadurecer em relação a isso, principalmente quando erroneamente manifestamos aquilo que construímos equivocadamente sobre alguém. Ontem assisti ao documentário "Amy", que no corrente ano ganhou o Oscar de melhor documentário de longa-metragem. Trata-se da apresentação da vida de Amy Winehouse, cantora que conquistou notoriedade mundial devido à sua voz marcante e personalidade forte. Utilizando fotografias, entrevistas, apresentações de TV e vídeos caseiros, a obra nos revela a pessoa que estava por trás de tão comentada figura pública.

Da infância à lamentável morte, percorremos um pouco dos vinte e sete anos da vida de Amy entendendo suas fragilidades e desconstruindo as más interpretações que faziam a seu respeito. Lembro que a mídia incansavelmente divulgava imagens de aparições da cantora visivelmente bêbada e drogada de forma que não faltavam acusações ou deboche. Na época, um programa brasileiro de humor, inclusive, criou um personagem inspirado na cantora, sua imagem, suas prisões, lamentavelmente estavam ali sendo vistos como objeto de piada.

Ninguém, entretanto, se atentou à ausência de seu pai, às irresponsabilidades de quem estava ao seu redor, ao abandono de quem ela destinou muito amor, aos seus problemas psicológicos, às suas carências, aos abusos da vida de celebridade. É verdade que Amy se autodestruiu, mas ninguém escolhe esse caminho por motivações pífias. Assistir a esse documentário é perceber o quanto carecemos de respeito à dor do outro, à sua estrutura e particularidade na forma de encarar a vida. Percebemos que nossos precipitados julgamentos são frutos da nossa falta de empatia, insistimos em querer ver o nosso mundo sendo refletido nos olhos dos outros e nos recusamos a ver o mundo com os olhos deles, que Deus nos perdoe e nos livre de tamanha arrogância. 

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